O século XXI trata de imagens que se colocam acima dos fatos, da dor, das interpretações. E tudo na forma da complexidade. Tenso. Intenso. Uma pandemia. A morte mais agressiva. Os verbos que cortam, penetram e machucam. Tudo é sangue na imagem. Dilacerante. Rapsódias que se transformam em leitmotiv no momento em que cicatrizes são expostas. Este século depende dos séculos passados para poder ferir ou espelhar o presente. O século atual não respira porque já o conhecemos. Irá sufocar até espremer a sua identidade. Feito este derrame, que é uma ação violenta na primeira pessoa do desabafo, ainda que simbólica pelo desconhecido, reflete o lugar que ocupa. Pierre Bourdieu disse: '...Todo o meu esforço tende a descobrir a História onde ela se esconde melhor, nos cérebros e nas dobras do corpo...'. Quando a história feito coisa se encontra com a história feito corpo, no mesmo tempo histórico, 'as pessoas fora de prumo, que se deslocam de sua classe, para baixo ou para cima, são pessoas com histórias que, muitas vezes, fazem história: são defasagens entre a História incorporada e a História reificada'.
Em A Linha Imaginária e outras linhas, Ruy Guilherme Barata, no Álbum de Fotografias, poetiza:
[....]
Onde andais amigos meus?
Vinde depressa,
Companheiros correi,
já se faz tarde,
o adulto entre nós cavou distâncias.
Só o retrato nos prega à eternidade.
[...]
(Breves considerações sobre o amanhecer)
No dia 13 de maio perdemos o nosso amigo Hélio de Souza Furtado, vítima do coronavírus, da doença Covid-19. Foi um baque para todos nós, que trabalhamos na Funtelpa. Do grupo de risco, Hélio ia fazer 64 anos em outubro, estava na linha de frente com o seu equipamento de trabalho, como cinegrafista: mídia. Nesse mesmo dia, à noite, o 'Cultura da Hora' fez sua homenagem:
O site 'Os Inumeráveis' - Memorial dedicado à História de cada uma das vítimas do coronavírus no Brasil -, também faz seu registro. O nome de nosso amigo muito querido está lá. No dia 21 de maio, o jornal Folha de São Paulo, no seu caderno Ilustrada, discute a escrita de obituários no jornalismo. Um podcast que inicia de forma leve, para entrar no espírito da mensagem. O jornal New York Times apresenta no seu corpo editorial a coluna Obituários, produzida em exemplar literário pela Companhia das Letras - O Livro das Vidas. No meu antigo blog - morenocris -, ainda na Biblioteca do prédio da Almirante Barroso, fiz uma entrevista com o Hélio Furtado e com o Ronaldo Silva, ambos cinegrafistas. Farei a transcrição da entrevista do Hélio, realizada no dia 04 de abril de 2012:
Homenagem da Biblioteca da Cultura.
Hélio Furtado
Para Hélio de Souza Furtado, 63(iria fazer 64 no dia 24/10), a mudança tecnológica que atravessa o tempo, é fantástica. ‘A primeira câmera que liguei na vida, funcionava através de válvula. Lembro-me como se fosse hoje. Chegava pela manhã para trabalhar(TV Guajará), e ligava o equipamento para que pudesse fazer o jornal à noite. A válvula ficava aquecendo. Com a mudança de prédio, chegaram modernos equipamentos – tubo de imagem. Só tinha um problema, não podia ver o sol que ficava tudo manchado. Depois chegaram as -mil e oitenta-, -mil oitocentos e vinte-, -meia sete-, -meia meia- (referências), com tecnologia mais avançada. E aí mudei pra cá, para a TV Cultura(1988). Peguei as câmeras -m três a-, -m três b-, com o formato comprido. Vieram as câmeras integradas, com os componentes internos e maior sensibilidade. Formato bem menor. Surgiram os VHS e Super VHS.
Recordo que comprei o meu videocassete em um consórcio de 12 parcelas, descontados do meu contracheque. E, entramos no formato HD. Hoje, a Cultura pode dizer que é top de linha. A minha entrada para a televisão vem do meu trabalho no cinema de Belém. Era operador de projeção, e trabalhei em todos os cinemas da capital – Olympia, Iracema, Nazaré, Palácio, Guarani(Bairro Cidade Velha), Paraíso(Bairro Pedreira). Na televisão, fui para operar o Telecine(máquina para colocar os filmetes). Nesse tempo, como não tinha vídeotape, todos os comerciais eram feitos em slides ou em películas de 16 a 35 mm. Ia para o laboratório e fazia a revelação. Assim, fui entrando no ramo da televisão', explica Furtado.
E hoje, a qualidade mudou completamente?
Completamente. Vou dar um exemplo. O futebol. O tempo é de 45 minutos. Naquela época, você tinha que levar um VT de mesa, com um metro de comprimento e 80 de largura. Era o único VT que recebia a fita de uma hora. Eram quatro pessoas para carregar essa mesa. Precisava de uma fonte grande para alimentar a câmera, energia para ligar o VT.... era tão difícil trabalhar, que até o veículo para carregar todo esse material, tinha que ser imenso. Atualmente, você pega uma câmera dessa pmw-320, coloca um cartão e grava até três horas de duração. Depende da resolução. Hoje em dia, é tudo mais prático para trabalhar. E a qualidade é muito melhor.
Quanto mais a máquina é potente, não exige também mais criatividade?
Exige mais criatividade e cuidado com o equipamento, porque ele pode te denunciar. Como é supersensível, a máquina vai denunciar qualquer falha que pode existir dentro de um plano de filmagem. Se tiver uma mancha na parede, vai denunciar. Um fio de cabelo pra cima, vai mostrar. Por isso, o olhar tem que ser apurado. Daí que foi criada a função de Supervisor de Cenário. O olhar passou a ser criterioso.
A entrevista foi interrompida por uma repórter que o chama para mais um dia de trabalho. Estávamos na Biblioteca, no antigo prédio da Avenida Almirante Barroso, em 04 de abril, de 2012.
Homenagem da Biblioteca da Cultura.
Parabéns Sra Cristina Moreno, pela excelente matéria!!!!
ResponderExcluirObrigada!
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